Ler Matéria - Revista RIE
Entrevista - Ismael Gobbo
Orson Peter Carrara

Ismael Gobbo (*) nasceu e reside em Araçatuba, no interior paulista; é espírita desde a infância. Organizou os livros de biografia de autores diversos: Obra de Vultos I e Obra de Vultos II, lançados pela Use Araçatuba da qual foi presidente por nove anos, sendo diretor de Orientação Doutrinária no atual mandato. Está vinculado à Aliança Espírita “Varas da Videira”, na mesma cidade, sendo seu atual presidente. Tornou-se muito conhecido com os boletins diários de notícias espíritas.

RIE – Como e quando se tornou espírita?
Ismael – Sou espírita de nascimento. Minha mãe, recém-casada, passando por uma enfermidade física cuja cura não encontrou na medicina, buscou ajuda no Centro Espírita Amor e Caridade, na cidade de Birigui, SP, onde se curou. Meu pai também passava por difícil processo obsessivo. Orientados começaram a frequentar as reuniões, inclusive em Araçatuba. Passei pela evangelização no C.E. Bezerra de Menezes, pelo Grupo Espírita Pagan e posteriormente na Instituição Nosso Lar onde me iniciei na Mocidade Espírita e no movimento de unificação.

RIE – Relate suas experiências de coordenação do movimento de mocidades espíritas.
Ismael – Como disse comecei pela Mocidade Espírita na Instituição Nosso Lar, uma entidade fundada por dois importantes vultos do Espiritismo de Araçatuba: Rolando Perri Cefaly e D. Emília Santos. Antes frequentamos, ali, aulas de moral cristã dirigidas por Emília Santos, até a data da sua desencarnação em 26 de setembro de 1964. Pouco tempo depois, no dia 15 de novembro do mesmo ano, por iniciativa de Antonio César Perri de Carvalho, sobrinho de Rolando, foi fundada a Mocidade Espírita Irma Ragazzi Martins, sendo César o seu primeiro presidente. Eu fiquei como vice. A cidade, que já contava com uma mocidade espírita, viu outras surgirem, ensejando a partir daí o surgimento do Departamento de Infância e Mocidade, que resultaram nas Tardes do Moço Espírita, nos encontros pela região e a participação nas confraternizações de Mocidades. Na nossa região era a COMENOESP - Confraternização das Mocidades Espíritas do Estado de São Paulo, conclave idealizado pelo jovem Girofel Orestes de Sampaio Toledo, hoje residente em Campo Grande, MS. Fui sendo colocado em alguns cargos no movimento espírita da cidade e região ao lado de outros companheiros.

RIE – Que influência aqueles movimentos tiveram em sua atual atuação espírita?
Ismael – Acredito que a base doutrinária com D. Emília, Rolandinho e César, que nos facultaram oportunidades de participação, seriam no futuro utilizadas para o trabalho atual. A participação no movimento de unificação possibilitou-nos conhecer muitos amigos por toda parte, que acabariam nos encorajando para a tarefa. O conhecimento da doutrina, máxime as obras subscritas pelo grande mestre Allan Kardec, são fundamentais para a atividade de difusão do Espiritismo. E essa base fomos conseguindo desde a mocidade, elaborando os trabalhos que concorriam nas confraternizações, participando de torneio de oratória, enfrentando o público nas palestras etc. Este preparo anterior é o que nos oferece segurança para o trabalho que buscamos desenvolver.

RIE – Quais as lembranças mais marcantes desses citados movimentos juvenis?
Ismael – As viagens para as confraternizações, apesar das dificuldades de trajeto, seja pelas distâncias ou pelas condições das estradas. Nas cidades éramos hospedados por familiares de jovens locais com muito carinho. O ambiente nas confraternizações era sensacional, de excelente participação, alegria e grande interação. Ali ouvíamos os grandes oradores da época e também aqueles que no futuro dariam continuidade ao trabalho. Sentimos que o movimento espírita está muito bem e isto tem a ver com a preparação no ambiente da evangelização infantil e da mocidade espírita.

RIE – Você mantém contato com esses antigos amigos de ideal?
Ismael – Tenho contato com muitos deles, os quais buscam me ajudar de todas as formas. A amizade com eles facultaram-me por conta da participação conhecer muitas outras pessoas do Brasil e do exterior que me ajudam e incentivam a prosseguir no despretensioso e amador trabalho de divulgação.

RIE – E o que dizer da dinâmica no movimento espírita de Araçatuba e região?
Ismael – A nossa região foi pródiga em excelentes trabalhadores, que prepararam muitos companheiros nas diversas cidades da nossa região. Com isso a lida prosseguiu e continua rendendo bons frutos por toda parte. Em toda a região as ações desencadeadas a nível nacional e estadual são levadas a todas as Casas Espíritas. Ainda agora um extenso programa comemorativo do centenário de nascimento de Chico Xavier, fomentado pela FEB e USE, envolverá todos os oradores e Centros Espíritas da região. No âmbito da Use Intermunicipal de Araçatuba temos 15 Centros Espíritas filiados e mais de 50, se considerarmos a região, fora outras instituições espíritas de assistência e promoção. Além de diversas atividades, a USE local tem uma escala de oradores que é disponibilizada a todas as casas espíritas. A Folha da Região publica uma matéria espírita todas as quartas-feiras e, alguns oradores, quando o agendamento permite, participam de entrevistas na TV, onde a USE tem bom acesso. Breve deveremos ter recepção da TVCEI.

RIE – Qual a influência de D. Benedita Fernandes no movimento espírita da cidade?
Ismael – Dona Benedita Fernandes foi um vulto de escol no movimento de Araçatuba e também da região. A grande lider nasceu em Campos Novos da Cunha, SP, aos 27 de junho de 1883 e desencarnou em Araçatuba aos 9 de outubro de 1947. Por volta de 1920 ela perambulava pela cidade de Penápolis, SP, vítima de uma pertinaz obsessão. Tão grave era seu estado que, à falta de algum hospital para atendimento, o carcereiro Padial a recolheu na Cadeia Pública. Atendida por ele, por João Marcheze e Elpídio Antônio Moreira, ela alcançou solução para seu problema obsessivo e, como gratidão, se prontificou a ajudar os necessitados. Aportando em Araçatuba ela começou a erguer casinhas de madeira com amigas lavadeiras por volta de 1927. Fundou a Associação das Senhoras Cristãs e trabalhou com crianças e doentes mentais. Hoje existe o Hospital Benedita Fernandes, muitíssimo bem dirigido e contando com o apoio da comunidade em geral e dos espíritas. Várias casas, inclusive a nossa, desenvolve semanalmente trabalho naquela grande e bela instituição, através da explanação do Evangelho e aplicação de passes. O leitor que desejar pode acessar sua biografia em vários sites da Internet ou lê-la no livro Dama da Caridade, de Antonio César Perri de Carvalho, pela Editora Espírita Radhu Ltda.

RIE – E o informativo diário que você distribui pela Internet?
Ismael – O porquê do começo nem mesmo eu sei te explicar. Fui percebendo que poderia desenvolver um trabalho facilitador de divulgação. Então fui compilando notícias em um e-mail e repassando na minha lista que não ultrapassava 50 endereços no início. O e-mail tem ajudado muitas pessoas a conhecer as atividades que se desenvolvem nas diversas regiões e as ajustam às necessidades de suas casas espíritas. Então o foco não é simplesmente arregimentar público que, acreditamos, pode não ser tão expressivo, mas mostrar o que vem sendo feito e como podemos aproveitar as ideias. É um trabalho alternativo, pessoal e simples que permanecerá enquanto se mostrar com alguma utilidade. Hoje são quase 4 mil destinatários e continuo recebendo muitas listas de colaboradores de várias partes do Brasil e do exterior, sendo que dezenas de amigos repassam em outras inúmeras listas. Acho que este é um bom caminho de divulgação e vários companheiros já fazem isto com muita competência, obstinação e carinho. Tento ser assíduo e só não envio o e-mail quando ocorrem problemas técnicos de Speedy, no computador ou alguma viagem para atender compromissos inadiáveis. Pediria aos leitores que nos enviem notícias de suas casas espíritas, façam coberturas dos eventos, inclusive com fotos, e busquem repassar em suas listas de contatos.

RIE – E a coluna FOCALIZANDO O TRABALHADOR ESPÍRITA?
Ismael – É o trabalho com o qual tenho mais identidade e que tenho a felicidade de poder desenvolver na Folha Espírita, onde fui aprendendo sob a direção da Doutora Marlene Nobre, que reputo como uma das maiores expressões do movimento espírita da atualidade. Ela tem sido minha inspiração e tenho uma enorme honra por poder privar de sua terna amizade. Vamos fazer de todos, os trabalhadores que for possível. E para tanto não escolhemos se eles têm mais destaque ou menos destaque. Isto não entra como item de escolha. Dependemos, sim, da disponibilidade das pessoas e até de alguma intuição ou indicação.

RIE – Quais os critérios estabelecidos para veiculação das notícias?
Ismael – O critério tem que ser o do bom-senso. Procuro segui-lo dentro da orientação espírita de mais de seis décadas e de grandes mestres que tive na minha vida. Às vezes surgem dificuldades porque alguns temas, textos, notícias, títulos de livros etc, não se amoldam ao que estamos acostumados e são estopins para polêmicas. Acho que dá para contar nos dedos algumas coisas que não repassei; excepcionalmente só aquilo que enxergo como algo que vai trazer mais confusão que ajuda. E até fazemos uma observação de que aquilo que repassamos não reflete necessariamente o nosso pensamento. Tenho pedido ajuda a Deus para me guiar os passos nesse modesto, mas abençoado trabalho. Agradeço aos amigos queridos que têm me incentivado e me ajudado no trabalho, a quem canalizo todos os méritos.

RIE – Suas palavras finais.
Ismael – Eu agradeço pela gentileza da oportunidade. Creio mesmo que foram os laços do coração que ditaram a iniciativa. Sou amigo de todos os responsáveis pela Editora O Clarim, que nunca deixaram de me ajudar. A consideração é muito grande e mútua. Somos parceiros na divulgação. Aos amigos espíritas do Brasil rogo a bênção do maior de todos que este mundo conheceu: Jesus.

(*) Assinava Ismael Gobi antes de retificar o patronímico para obter Cidadania Italiana.
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